Casamento

vem cá meu amigo,
sai do relento.
anda camarada! vem cá pra dentro.

te serve de um café
e expõe teu tormento
pelo cheiro do teu vento
vejo que brigaste com a muié!

respira, meu amigo!
senta e desembucha!
perdeste teu abrigo?
que barra, hein?…puxa!

teu silêncio parece culpado…
mas tua cabeça ainda ignorante
sofres em minha frente, calado
como se injustiçado e tido por tratante.

não tenciono ser castigante
mas aprisiono agora uma lição
que quer libertar-se como ducha
pode não te ser confortante
mas necessito deitar um sermão

.

não aguardarei teu clamor
teu pedido de ajuda
o deprimente e constrangedor
pedido para que o acuda

não vou fazer-me de rogado
o sermão vaza de uma forma até esdrúxula
na lata, queda ele assim versado:

bem mais que teu intento
deveria ser, meu caro,
teu casamento!

poupe-a de uma vez da cantilena,
dessa lamúria persistente
que trazes todo dia do batente:
petrificas assim o lar
de calor tão carente.

queixa-te do chefe e do trabalho
diz que todo mundo é paspalho
e que, ah sim, você é que é do caralho.

ponderes um bocado…

dos fatos do teu dia, autoqueremista,
não és repórter, mas analista.
ou melhor, lobista.

a sociedade que propões não tem fatos
vive antes à custa de relatos
é avessa ao debate
e sem dialética
dista da verdade.

como densificaria ela seu queixume
se seus erros não vêm igualmente a lume?

como iria ela contrapor, seu tonto,
com erros que também o interlocutor cometeu
se contigo o ponto
jamais ela bateu?

tomas tu então o sofá como púlpito perfeito
finge ser conversa, um discurso rarefeito.

bestamente ficas lá
pagando de perfeito.
como iria ela suportar, muda,
a empáfia de um tal sujeito?



 


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