coração mudo

 

mulher, você me ouve?

se puder, de agora em diante,
ignore, releve, meu lado ainda ignorante.

errei – e muito!

não valorizei, não me importei,
quando nossos filhos você gestava
quando de nosso lar você cuidava

e agora vêm você e me cora
mostra que sabe cuidar
do mundo de dentro
e do mundo de fora

que você pode ser homem se desejar

já que sabe gestar – e educar.
sabe amamentar – e conquistar.
sabe escutar– e ponderar.
sabe cozinhar – e ordenar.

sabe sofrer e suportar,
sem com isso se gabar.

hoje, sei que você pode tudo
e eu pouco, muito pouco.
não sei ser mulher:
em matéria do coração sou mudo!

sei apenas tratar do que acontece lá fora.
as coisas aqui de dentro só você, mulher, sabe dominar.

eis aqui então algo para você analisar:
se você abnegadamente acreditar,
nunca mais vou lhe desvalorizar.

mas não, por favor, encarecidamente,
não se torne homem definitivamente!
isso seria o fim do mundo, certamente.

prometo cuidar das coisas burocráticas e sem importância,
construir aviões e pontes,
ficar enfurnado em laboratórios com teorias aos montes
criando enfim soluções para imbróglios que eu, só eu, dei relevância

tudo isso farei
para que você pare agora!

apenas continue
semeando paz no nosso lar,
quem sabe assim
minh’ alma cure…

e além disso, prometo o seguinte:
até o ano quatro mil
os pratos eu lavarei
e o chão encerarei
farei tudo que não tem requinte,

para que você pare com esse desatino
de a todo custo desenvolver e mostrar
seu lado masculino

em casa, tirando pó e enxugando talher
espero aprender o que é humanidade
espero aprender o que é ser mulher!

 



 


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