espiral

no começo, era o nada.
depois curtir um pouquinho, sem compromisso.
então, com o fim da festa, encarar meus criadores.
descobrir a força deles dentro de mim.
decodificar que as vozes deles em mim, são minhas.
odiar então a eles e a mim!
— e descobrir que isso não resolve,
já que as vozes voltam sempre —
ouvir as vozes…
entender as vozes.

o que vem de dentro?
o que está dentro, mas vem de fora?
o me faz seguir, não querendo?
o que me faz parar, querendo ir?

canso-me dessa batalha inacabável.

paro.
grito!
choro.
respiro…

vou tomar um café fresquinho…

e a fragrância do café me lembra do que é viver.

é estar aqui e poder sentir.

sentir o cheiro do café
colocar a mão sobre a xícara
e sentir o vapor em meus poros

lembrar do café que minha mãe fazia
dos cafés bebidos após filmes inesquecíveis.

lembrar que café também é negócio
que envolve interesses
que movimenta a economia
que gera emprego
nem sempre em condições tão dignas…

sorvo-me do café, sorvo-me do mundo, do passado, do presente…
sorvo-me do mundo em um gole e lembro-me do futuro.

esse café que tomo é futuro

porque ele agora é o presente de um futuro antigo
ele foi futuro quando eu tomava café com minha mãe
quando estudava economia
quando entendia sociologia
quando no cinema me divertia

tudo para tomar esse café do futuro que, no exato momento em que vira presente, nessa golada, me faz lembrar do futuro e de que eu tenho que voltar para minha escrivaninha, onde pensamentos de dentro e de fora, voltarão a rodar.

porque o mundo roda e volta ao mesmo lugar, diferentemente.

eu bebi do café que tinha nele todo o mundo
eu sou o mundo

o mundo é bonito
o mundo é a vida
e a vida, essa danada,
é tão linda.

centro novamente os olhos nessa batalha invencível e inacabável

essa linda batalha inacabável.

 



 


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