“Falando nisso…”

Entre choques elétricos e ultrassons fisioterápicos, Cláudia era como uma antena, como um satélite do mundo ao seu redor. Trabalhava das 08h00 às 20h00, o que fazia em dois turnos intercalados por um almoço corrido. Fora essa saidinha rápida, ficava trancafiada em sua sala de consultório. Quer dizer, nem tão trancafiada assim… Se assim fosse, histórias tantas lhe faltariam. Não era o caso. Sempre tinha piadas originais e notícias fresquinhas para dar ao próximo paciente. Alguns pensavam até que ela em verdade atendia pouco, daí a explicação para tanta tagarelice, tanto conhecimento geral a pulular de sua boca. Impossível saber de tantos assuntos e histórias diversificados. Um dos pacientes, aliás, pensava que ela vivia por aí, a bater pernas. Somente dava as caras, jurava, um pouco antes do horário da consulta, sendo ela expert na preparação do semblante cansado. Cláudia, ignorante de todas essas especulações, não perdeu a oportunidade de compartilhar uma história que emendava certinho com o papo anterior, que patinava em um desgastado e entendiante lugar comum de que “não podemos mais confiar nas pessoas”.

– Falando nisso, você não acredita no que uma paciente me disse certa vez. Ela marcou um encontro pela internet.

– Ora Cláudia, deixe de ser antiquada. Isso está comum hoje em dia!

– Tá, tudo bem. Mas o menino morava em outro Estado! Ela não conhecia sua família, não sabia quem era, o que fazia da vida. Disse que ele vinha de avião, ia pegar um táxi e ir direto a sua casa!

– Cláudia, que bom, pelo menos não se fica perdido pela rua. Hoje em dia tá um perigo!

– Márcia, a menina é portadora de deficiência! Você não sabe como às vezes essas pessoas são? Você sabe, um pouco mais carentes… Um pouco mais inocentes… Com a libido acentuada…

– Quantos anos eles têm?

– Ela 18. Ele, uns 30, pelo que ela disse, achando o máximo a idade do moço.

– E o que você fez?

– O que eu poderia fazer? Ela era minha paciente. Apenas isso. Quais minhas alternativas? Procurar a mãe dela e avisar? Eu nem a conheço. Até pensei em olhar no celular da menina enquanto ela se trocava no banheiro para a sessão, mas o aparelho tinha senha. Meu coração veio na boca quando ela abriu a porta inesperadamente para perguntar se eu tinha elástico para prender o cabelo… Eu lá, atônita, com o celular dela na mão.

– E aí?

– Aí que eu disse que eu tava pensando em comprar um igual para mim! Não sei se ela acreditou… Ela não me conhecia tão bem, ela era minha paciente há duas semanas.

– Complicado…

– E ela era tão feinha. Coitada! Não via porque alguém ia viajar de avião para vê-la. Para boa coisa não podia ser. Eu até liguei na polícia.

– E aí?

– Aí que o delegado me perguntou se eu já tinha falado com a mãe da menina e se enfureceu quando eu disse que nem a conhecia, que somente era sua fisioterapeuta. Quando se acalmou, dizendo que queria ajudar, perguntou se sabia que horas o meliante iria chegar no aeroporto. Disse que poderia ir lá dar uma checada.

– E você sabia?

– Claro que não, o delegado desligou o telefone na minha cara.

E prosseguiu com o relato do fatídico dia:

– Quando ela saiu naquela sexta-feira, devolvendo-me o prendedor dos cabelos sedosos que tinha preparado no cabeleireiro, ela estava extasiada, a poucas horas de estar frente a frente com seu príncipe encantado – Cláudia gesticulava, de forma a mostrar o quão sonhadora e ludibriável estava a menina.

– Estou com medo do final dessa história, Cláudia. Não sei se quero ouvir você falar.

– Ela tinha me dito naquela sessão, imagine, que o moço era simpático, educado, atencioso, tantas qualidades que mal me lembro. Sobre o fato de o rapaz estar vindo de tão longe, tinha opinião completamente oposta à minha. Estava vindo “porque queria me conhecer melhor. Estava interessado em coisa séria. Senão, não viria, oras!”. Enquanto isso eu pensava que ele estava a executar um plano perfeito para não ser identificado pelos malfeitos que poderia fazer à menina.

– Como assim, Cláudia? Ai! – interrompeu – esse choque está muito forte hoje… Você está meio alterada! – Brincava Márcia, ainda que meio sem graça, já que se via um pouco assustada com o caso – Não dá para abaixar um pouco?

– Claro… – concordou Cláudia sobre a dosimetria elétrica – Pronto! Como, “como assim”? Ué, o cara vem pra cá, ninguém conhece ele, ninguém tem nem ideia de onde a menina está ou o que estariam os dois fazendo…

– A mãe não ia estar junto? Mora em casa ou apartamento?

– Não. A mãe estaria viajando. Até lingerie a menina tinha comprado, acredita?. Você precisa ver, um espartilho vermelho, coisa mais linda… Ela trouxe aqui naquela sexta-feira.

– Mora em apartamento pelo menos? Seria um pouco mais seguro.

– Casa, eu acho. Ela tinha dito que ia de roupão até o portão, para atendê-lo. Vê se pode? Um cara da internet?

– Meu Deus…

A paciente estava tensa… Quando Cláudia pediu que relaxasse, pois de nada adiantaria a sessão se não soltasse bem os músculos, ela disse, soltando, vencida, um pouco do ar acumulado no peito. “Tá, pode contar…”, disse, “o que aconteceu com ela?”

– Como o que aconteceu? E eu lá sei. Não te falei, era a segunda semana dela aqui. Fizemos dez sessões, cinco em cada semana. Ela nunca mais apareceu.

– Cláudia, eu te mato qualquer dia desses! Quase morri do coração!

E assim seguia a vida de Cláudia, com histórias inacreditáveis, a fazer inveja a muito escritor. Fechada o dia inteiro no consultório, era como se tivesse uma tela de cinema sobre a maca de cada paciente. Curtas-metragens de dez minutos eram passados ali. A programação era democrática, sem monopólio pela dona do lugar. Entretiam-se seus pacientes, que levavam de volta para o mundo contos inesquecíveis. Divertia-se Cláudia, que entre um alongamento e outro de braços e pernas em recuperação, viajava entre acontecidos policiais, notícias do tempo e de corrupção, além de histórias improváveis, algumas de final caprichosamente desconhecido.



 


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