Família Sapuchuva!

– história infantil – 

A família de sapos vivia tranquila perto de um laguinho. O calor estava de matar. A mamãe Anura disse para um dos seus filhos que tinha saído da água há um tempão e não vinha logo pra casa:
— Corre pra cá, Girmino! Vem pra sombra, meu filho!
— Mas mamãe, o dia está tão lindo! O sol está tão forte…
— Por isso mesmo!
O sapinho Girmino correu então, meio a contragosto, para o lado da mamãe Anura e disse que estava com muuuuuita sede! Então a mamãe e pegou um baldinho azul cheio de água e jogou no filho. Xuáaaa, fez a água caindo no corpinho do Girmino. Então a mamãe disse:
— Meu filho, a mamãe não quer pegar no seu pé quando fala para vir na sombra. E Girmino começou a bocejar… Lá vinha mamãe Anura com mais um dos seus ensinamentos. Ele já se achava grande, maduro. Mas todos da família sabiam que não. Sabiam que não porque Girmino ainda tinha uma cauda, um rabinho, que indicava que ele não era um sapo adulto.
— Tá, tá bom mamãe. — Girmino estava meio irritado porque não achava que precisava tomar banho de novo. Devia ser um castigo da mãe. Então ele disse: — Eu já vim pra sombra e já tomei um banho de castigo. Além do mais — e se exibiu como se não precisasse mais da mãe — eu nem tenho sede mais!
A mamãe achava engraçado como o filho não sabia muitas coisas da vida. Sabia que precisaria dar muita atenção a Girmino até que ele fosse um sapo adulto como o pai, o Sr. Sapossa.
— Filho, a mamãe já sabia que você não estava mais com sede.
— Sabia nada!
— Sabia sim!
— Duvido! Você não tem superpoderes de adivinhação…
— Quer aprender o meu truque? Eu te ensino — Disse a mamãe. O filho ficou curioso e disse que sim, dando até uns pulinhos!
— Tá, então vamos fazer assim: eu vou marcar no relógio e você vai ficar dois minutos no sol e dois minutos na sombra. Com-bi-na… Filho? E Girmino já estava lá no sol, feliz e faceiro!
Depois de dois minutos:
— Volta filho!
Girmino voltou todo contente por ter tomado mais um banho de sol. A mamãe contou mais dois minutos na sombra e perguntou:
— Com sede ou sem sede?
Contrariado, sem ainda entender qual a mágica, o filho respondeu:
— Mamãe, eu estou morrendo de sede! Então a mamãe pegou outro baldinho, dessa vez de cor amarela, também cheio de água, e jogou novamente no filhinho. Contou mais dois minutos. Durante esses dois minutos, Girmino ficou muito chateado com a mamãe: tinha feito tudo certo e tinha tomado mais um castigo de banho.
Nisso as duas irmãs de Girmino, as sapinhas Anfi e Bia, chegaram do trabalho e perguntaram: “Mamãe, está fazendo o truque da sede com nosso irmãozinho?”. Ele emburrado e enxaguado, com os braços cruzados de raiva, disse, antes mesmo da mamãe, um “sim, está” bem contrariado.
Ao final dos dois minutos já se sentia melhor.
— Passou a sede? — Perguntou mamãe Anura.
O sapinho ficou surpreso com a pergunta. Esqueceu de toda a sua irritação ao se dar conta de que a sede tinha passado. A mamãe então contou mais dois minutos no relógio, dessa vez para Girmino tentar adivinhar o truque. Antes de acabar o tempo, o sapinho muito exibido, gritou, todo afobado:
— Já sei, já sei! E mamãe olhou para ele e pensou que ele responderia a mesma coisa que as irmãs, quando aprenderam o “truque”. Ouviu do filho: “ficar de castigo mata a sede!”. E as duas irmãs, bem escondidinhas, riram baixinho da resposta do irmão: era exatamente a mesma que elas tinham dito quando crianças.
— Mais ou menos, meu filho, mamãe vai te explicar.
E a mamãe sentou sobre uma pedra e começou a contar.
— Nós, os sapinhos, somos especiais. Não somos como os gatos e os cachorros, que usam a língua para beber água…
— Mas temos a língua tão grande, mamãe! — Interrompeu o sapinho.
— Agente usa esse linguão — e a mamãe botou aquele linguão todo de adulto pra fora — para alcançarmos as mosquinhas que nós precisamos comer!
— Então nós não bebemos água?
— Bebemos, só que não com a língua. Nós bebemos pela… pela… PELA PELE!, meu filhote! — Disse a mamãe revelando o grande mistério. — A mamãe te deu aquelas duchadas de água, que eu vi que você não gostou, porque você precisava meu filho. Quando nós ficamos muito tempo no sol, nós, os sapos, perdemos muita água pela pele, ficamos secos pouco a pouco. Por isso que a mamãe te mandou para o sol só por dois minutos. Para que você visse como é. Daí depois eu joguei a água para você não virar uma bolacha em forma de sapinho, de tão seco que você podia ficar!
— Por isso que quando nós passeamos no domingo nós sempre procuramos algum lago para ficar perto?
— Isso, meu filho, porque precisamos sempre nos refrescar. Beber água pela pele!

No outro dia, Girmino acordou pensativo e triste.
— O que aconteceu, meu filho? — Perguntou a mamãe.
— Eu acho que eu preferia ser sempre um peixinho dentro da água. Preferia ter sido sempre girino, não ter virado sapo.
— Não diga isso, meu filho. — Falou a mamãe. — Todos nós fomos girinos um dia, mas é só uma fase. Depois crescem duas patinhas, depois mais duas, começamos a perder nossa cauda, aquela que nos ajuda a nadar e temos que, enfim, vir para a terra.
— Mas é muito injusto poder andar na terra mas não poder ficar muito o tempo curtindo o sol. Parece uma coisa boa que é proibida pra nós — Falou Girmino bem tristinho.
— A mamãe te entende, meu filho. Mas um dia você vai ver: tudo tem um lado bom e um lado ruim. Agente tem que enxergar o lado bom das coisas.
Mesmo assim, mesmo com as palavras da mamãe, Girmino não ficou de todo contente.

Depois de algum tempo, em uma noite começou a chover muito forte. Grandes trovões. Buuuuuh! Raios, muitos raios. A mamãe foi dormir com Girmino, para ele não ficar com muito medo.
Quando amanheceu, a chuva ainda era forte. Girmino olhou na janela e viu que as pessoas fugiam da chuva. Quase ninguém saía na rua. E quando via alguém, essas pessoas corriam logo para um abrigo. Quando estavam debaixo da chuva elas pareciam incomodadas, andavam curvadas, como que fugindo da chuva. Girmino ficou com medo da chuva também.
Só que no café da manhã todos estavam felizes. Papai disse:
— Filho, hoje ninguém vai trabalhar!
— A mamãe também?
— Sim! Ela também não vai trabalhar!
— Anfi não também?
— Não!
— Nem Bia?
— Não não!
Encafifado, o filho caçula perguntou por quê.
— Quando chove — respondeu o pai — os sapos tem dia de folga. Não precisam trabalhar.
E quando Girmino viu, mamãe já tinha tomado café e estava arrumando a cesta de piquenique. Iam passear!
Quando estavam na porta de casa, mamãe saiu pulando na chuva, bem no meio da rua, junto com Anfi e Bia! Elas pareciam muito, muito felizes. Mas Girmino estava com medo. Ficou lembrando dos raios e trovões da noite. Na sua cabeça vinham as imagens das pessoas correndo de medo da chuva. Ele estava com muito medo também.
O Sr. Sapossa viu que o filho estava inseguro. Pegou na sua mão e disse:
— Filho, pode vir. Não tenha medo. Papai vai contigo. Vem! Não tem perigo. Veja como mamãe e as manas estão se divertindo!
Girmino deu o primeiro pulinho na chuva de mãos dadas com o papai. Foi aos poucos se soltando e quando viu estavam eles, todos, aos pulos bem no meio da rua. No meio da rua onde nenhum carro passava, onde nenhum pedestre andava. Eles se deram as mãozinhas e fizeram uma roda, uma ciranda, girando no meio da rua. Não se aguentavam de felicidade!
Girmino foi dormir naquele dia muito cansado de tanto brincar com sua família na chuva. Um pouco antes de cair no sono, lembrou do que um dia a mamãe Anura havia dito: “tudo tem um lado bom e um lado ruim”. Foi então que ele entendeu: não podia ficar curtindo o sol por muito tempo, mas em compensação, quando chovia, o mundo era só dos sapinhos! Tinham o mundo só para eles. A chuva não os incomodava! Ao contrário, matava a sede no meio de tanta folia! Agora ele gostava de ser sapo e gostava de chuva. Pensou até que podia se chamar Girmino Sapuchuva! E foi dormir feliz por ser um sapinho com uma família tão linda!

FIM



 


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