flerte

 
do livro a capa é a parte mais mostrada
e do escritor só leva o título — mais nada.
não raro vem dela porém o flerte com que
decidimos se a história será ou não contada.

há livros que conhecemos num susto
na pilha da livraria ou numa estante empoeirada
há os que nos vem contudo de forma encomendada
de mãos quentes, de pessoa abalizada.

a procedência todavia
não nos tira a autonomia — e a responsabilidade
de a cada nova história
mergulhar de cabeça
em nova possibilidade

o meu eu de ontem, confesso,
julgava antes de conhecer
tomando livros pela cor,
tamanho e jeito de aparecer

hoje lido com curiosidade e frustração
tanto por amores não vividos
quanto pelos livros não lidos

vacinado, a cada obra descubro
um jeito novo de me aproximar
uma forma de pôr o peito aberto
e a cada vírgula me dedicar

chego até à ingenuidade
e à pretensão
de achar que de mim já não vão
antigas maneiras de pré-julgar.

de todo modo, se há algo de verdade,
não vão,
do caminho passei a traçar
é o que pelos escritores agora peço:

pratiquemos a leitura
com um pouco de paciência…
E de um modo mais vagar…

porque sei que o autor não controla a leitura apressada e o rápido virar de páginas de uma corrida louca em busca da última frase que se pretende de todo modo ver alcançada.

sem o necessário labor,
numa primeira e gratuita
veneração ao trabalho do escritor

(um olhar cego como o da Justiça):

em vão são os personagens, o enredo e os recursos estilísticos
mas se o mergulho for de olhos fechados, de fora para dentro,
o livro com efeito transporta, da solidão desse mundo cinzento
para o infinito de nossos recantos mais ricos, puros e místicos.

o livro, sem preconceitos,
é como um pobre amante
não consegue amar sozinho
no seu perambular errante.

a fusão de sentimentos
só se dá a dois
o melhor livro do mundo
depende do leitor, pois

conheça o livro como a uma pessoa
devagar, do primeiro olhar à última folha…



 


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