gato e rato

quando viramos quem somos?
quando aquele pé de galinha apareceu?
quando deixei de ter medo do meu breu?

o tigre na margem do rio não estranha
bebe água sem notar que o tempo passa
sequer nota que envelheceu
(quiçá o valor disso)

vive a vida
a ignorar que ela passa
dia após dia.

já eu vivo de sustos e solavancos:
vejo que meu filho cresceu, sem saber bem onde, quando ou como isso aconteceu!
“quando o cabelo mudou de cor? como a orelha ficou desse tamanho?”
“parecia-se mais comigo quando nasceu, semelhança que desapareceu”.

e de repente estou velho.
acusa-me assim o espelho
o mesmo que ontem emudeceu
traiçoeiro espelho, justiceiro de emboscada…

passo a saber então o que cedo ou tarde me espera:
não mais a vida, mas a irmã dela

e ser gato ou rato já não é opção (o tempo passou)
dependerá do que, dia após dia,
vivi sem saber que vivia
temi, sem saber que temia
cresci, sem saber que crescia.



 


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