lixo digital

 

desque me conheço por gente
notícia boa era a fresquinha,
a que lançavam na minha casa
bem demanhãzinha.

hoje se diz que o tempo é real
e tempo não mais tenho
de ler notícias no jornal.

ainda me salvo, ora ou outra,
graças à limitação dos jogadores
com duas partidas por semana
sigo falando com porteiros e zeladores.

imagine partidas em tempo real:
meu time em campo toda hora
só o porteiro atualizado, se sentindo o maioral.

doces saudades me confortam
quando vejo bancas com jornal
passo na feira menos pelas frutas
que pelo pacote de notícia nacional.

as mãos no pacote
esfrego, raspo,
anseio que se picote
de tão gasto.

corro à casa,
num espasmo
em desespero
à galope.

lanço frutas ao chão
com avidez espalho na sala
o jornal velho que leio com sofreguidão.

comido o periódico
nauseado com sua singular fragrância

rio

rio do que se dizia novo
no meu novo jornal de ontem

rio

rio da manchete
“congresso mundial sobre o lixo digital”

quando eu era pequeno meu pai leu
“querem fazer máquinas com tutano,
veja filho, igual ao meu e ao seu!”

hoje recolhendo frutas
picotes de notícias
mas também de figuras
concluo pelo sucesso
do que antes era profano
apenas me entristeço
com o que se segue ignorano

para que congresso
se para deletar o lixo mental
eu não peço?

tenho aqui registrada a convivência tida com o atendente do meu restaurante preferido
que, sem que ninguém me notificasse, foi demitido!

sim, tenho tudo armazenado:

Anderson, mulato
1,80, tatuado
boa autoestima
e bem humorado.

não faço a mínima ideia de onde mora,
nunca mais vou usar esse específico dado.

minha memória, todavia, feriria
se deletasse o “Anderssôm”
com quem rimas ridículas eu fazia
só para rimar com a palavra garçom.

o cara era legal.
hoje ele é
meu lixo digital.



 


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