mame

mame, dizia mommy.
e eu respondia com olhos, obrigado.
queria dizer com palavras, mas não podia
pois era um filho recém-chegado.

eu queria dizer tantos obrigados
agradecer já no útero pelo espaço tomado
dizer como era linda tua placenta
— verdadeira árvore da vida —
e falar ao mundo como foi indizível nosso parto

mas de lá você não me ouvia, apenas sentia.
então eu te chutava e me virava e sacolejava
era amor, espero que tenhas entendido,
o que para muitos era um bebê aturdido

daí nascemos nós dois, eu filho e você mãe
e o que me dão para me comunicar?
palavras?
música?
escrita?
não!: Choro e olhar!

então eu chorava.
chorava para mamar.
chorava para te olhar
era como manifestava
minha forma de te amar.

quando aprendi a escrever
já tinha esquecido de tudo:
meu desenvolvimento celular,
as contrações que vivemos juntos,
para que eu pudesse nesse mundo
ter meu lugar, caminho construído
a partir do teu amamentar.

tive que morrer como filho pra te largar
tive que morrer como homem pra psicografar
(de um outro mundo…
….e com acesso ilimitado a minhas memórias)
como eram infinitos os universos que experimentei
em cada hora de mamar.



 


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