Mulher do braile

“Cisne Negro é um salto sem paraquedas para o centro da alma humana e de seus conflitos. Uma provação aguda que nem todos temos o ‘privilégio’ de experimentar. A dor em carne viva. Um eterno se equilibrar entre a vida e a morte.”

Saí da palestra mais revolvido ainda do que fiquei quando vi o filme. Como se já não tivesse feito a minha interpretação, horas e horas olhando para as estrelas, aquela outra abordagem psicanalítica me volveu à noite em que, a cada talagada de vinho, pensava no conflito entre a claridade e a escuridão. Caminhava, absorto, rumo à saída da faculdade, olhando para o chão como quem quer descobrir segredos no centro da terra. O telefone de André me trouxe de volta a realidade.

– Você é um palhaço mesmo! Ri, pela enésima vez, do toque escolhido essa semana. O negócio dele era achar o som mais ridículo possível. Adorava ver a rejeição e o julgamento das pessoas e como essas reações mudavam de ambiente para ambiente. Crescidos juntos, eu fui para a clausura do consultório e ele foi para abertura das audiências. Entre uma sentença e outra, me acompanhava sempre que tinha alguma atividade do mestrado que lhe interassava. Dessa vez era “a psicanálise e o cinema”, encontros mensais que ele adorava. O telefonema, disse-me, era para almoçarmos com alguns amigos dele do Tribunal. Pessoas que eu conhecia e realmente começava a simpatizar.

– Vamos, bunda-mole!

Eu ria. Adorava o seu jeito desbocado. Anos e anos e aquilo tinha a mesma graça para mim.“É perto do consultório. Eu também não vou demorar”, completou.

– Ok! Vamos.

Claro que os amigos dele (ou seriam colegas) tinham que escolher um parafernoso restaurante para almoçar em plena quarta-feira. Era um francês que certamente ia me atrasar. Primeiro porque demora. Segundo porque ia ter que matar a fome em outro lugar depois. O que compensava é que realmente eu andava precisando dar essa quebrada na semana. Andava muito cansado entre vivenciar a dor dos pacientes e me enfronhar nos livros de pesquisa. E o pessoal era realmente muito descolado, nem pareciam juízes. Estar ali me fazia ter, ainda, esperança na Justiça, em uma forma de dizer o direito que estivesse próxima das pessoas. Feita por pessoas.

Pedidas aquelas frescalhagens (óbvio que eu pedi o mesmo que o André!), os dois casais começaram a falar cada qual sobre experiências profissionais e pessoais.

“Inacreditável. Fiz uma audiência ontem em que as pessoas estavam completamente fora de si. Brigavam irracionalmente. A empresa, pequena é verdade, pedia que o empregado devolvesse o uniforme de trabalho. Na audiência, o dono falava como se estivéssemos diante de um criminoso, um ladrão. Olhei no processo e o cara tinha trabalhado lá por vinte, vinte anos! Inacreditável. Possesso, antes mesmo da audiência, o trabalhador entrou com outro processo, dizendo mundos e fundos sobre a empresa, que havia salários atrasados, que era mal tratado, discriminado, explorado, muito do que me parecia ser mentira, senão um exagero considerável. Não tinha como prosseguir. Tive que suspender a audiência.”

“Impressionante!”, disse um, balançando a cabeça. “Meu Deus”, suspirou outra.

“Esse final de semana”, disse a moça que eu já não lembro o nome, “eu viajei com o pessoal do grupo para uma reserva ecológica. Vocês tinham que ver… todos os alunos se maravilharam com a natureza. Eu conseguia ver em cada expressão, no sorriso ou mesmo no olhar (por mais estranho que isso possa parecer) que eles estavam absortos. Incrédulos. Eu não consigo – e se contorcia com as mãos – expressar a leveza de espírito que havia em cada um deles.” E a moça, quando acabou de falar estava com os braços abertos sobre a mesa. “Eles se abriram para a natureza!”

– Grupo de quê? Perguntei, interessado.

– Eu dou aulas de braile em uma instituição beneficente. Em um final de semana por mês, nós fazemos viagens de integração. E nesse que passou fomos à reserva indígena Guarapurim. Lá é muito bacana! Eu nunca tinha ido e é tão perto daqui…

“Que fascinante!”, pensei. Eu estava realmente tendo uma experiência incrível ali. E aproveitava ao máximo, já que a alegria ia acabar quando chegasse a comida.

Enquanto o outro homem da mesa narrava mais uma viagem (esta de turismo) para um lugar exótico, intrigante, com uma cultura totalmente diferente da nossa, onde as “pessoas comem em roda, com as mãos, sendo que a cada ‘mãozada’, os pratos são trocados (passados para a pessoa do lado)”, André foi ao banheiro.

Levantou com tudo para trás e quase esbarrou na bandeja do garçom, que trazia nossas bebidas e uma notícia, a meu sentir, banal:

­- Acabou o coq au vin, senhora.

Não sei qual foi a dificuldade da mulher do braile para ler bem aquela situação. No meu mundo, bastaria escolher outro prato, dentro do vasto cardápio.

­- É um absurdo um restaurante como esses não ter o prato que agente pede! – E gesticulava com as mãos, como se martelasse a mesa. – Nós pagamos uma fortuna para sermos bem atendidos em ao menos um lugar nessa cidade e é isso? Não temos e é só? Como se fosse assim, simples, como se meu desejo não valesse nada!

E eu ali do lado do garçom humilhado sem propósito, olhava cabisbaixo para o fundo do prato branco, coçando sem jeito a cabeça, entre não querer nem tacitamente aprovar aquela conduta, mas também não me comprometer com os amigos do André. Eu e o garçom passávamos então por conflitos internos: o dele, diferente do meu, era trabalhar com ideias entre mandar à merda aquela dondoca ou manter o emprego que, provavelmente, pagava a faculdade do filho.

– Quero falar com o gerente.

– Senhora, em nome do restaurante, peço mais uma vez desculpas. É que o coq au vin da casa é feito somente com ervas naturais e orgânicas. Com o temporal que caiu na semana passada, nossa lavoura (fazemos questão de ter produtos próprios para garantir a qualidade) foi inundada e perdemos a plantação.

– Pois que busquem em outro lugar. Estou pagando por isso. Em que mundo vocês vivem?

Todos na mesa ficaram por um segundo pensando se ela realmente estava falando sério, se esperava que a tal erva fosse ser comprada em algum outro lugar a tempo de preparar o quitute desejado. O gerente não entendia a atitude descabida da mulher. Quem visse de fora, poderia achar que ele tinha alternativa, mas não estava atendendo a dama propositadamente.

Naquele momento, até o efêmero prazer que poderia vir sentir com minha comida já estava comprometido, diante de todo o desconchavo. Então ela interrompeu, pela derradeira vez.

– Traga um foi gras. E remendou, como quem quer dizer algo, fazendo-o dissimuladamente, nas entrelinhas: “se fosse para ser atendida assim, ficava no restaurante do Tribunal.”

André voltou da caminhada que era ir até o banheiro. O toilette ficava lá no fundo do restaurante, uma antiga mansão adaptada e era alcançado por uma trilha em que se cruzava um gramado, onde haviam pavões, periquitos e até um tucano, que provavelmente deve ter chamado sua atenção, já que demorou muito para voltar à mesa.

– Que aconteceu? Por que essas caras de bundas-moles? Ria, sem ser correspondido à altura por nossos sorrisos amarelos.

O almoço transcorreu à normalidade. O garçom que nos atendia foi trocado, mas eu continuava a sentir vergonha por estar ali. Tão somente por existir naquele lugar. Não havia meios de me fazer confortável estando sentado àquela mesa, compartilhando do alimento com tais pessoas. Queria entrar na cabeça dos garçons, de todos eles, do gerente e até mesmo do cozinheiro (que, a essa hora, já deveria saber do causo), tudo para, ali dentro, me diferenciar da mulher do braile.

Saí dali, contudo, com a cabeça a fervilhar de pensamentos acadêmicos. A relatividade das pessoas era definitivamente um tema a ser estudado. O assunto de meu mestrado estava, agora, escolhido. O desafio era explicar então porque é que as pessoas tem esse problema de descolamento da realidade. Essa dificuldade imensa de serem as mesmas independentemente do tempo e espaço. Como pode a mesma mulher que enxerga beleza na vida e na expressão de um cego, não conseguir visualizar, mesmo tendo a visão perfeita, o embaraço que causou ao garçom? O quanto ela, juíza, não foi injusta com o atendente que nada tinha a ver com as intempéries dos céus?

Com fome, claro, passei na lanchonete da esquina, antes de atender o primeiro paciente da tarde. Enquanto me lambuzava no molho do meu lanche, que me melecava de todo, ouvi o chapeiro dizer pro cara que sentou do meu lado no balcão: “aí fera, tamo sem frango hoje. Pode ser com carne?”

– Claro!



 


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