pássaros

eram pássaros vários sob o céu
simples pássaros negros
em um céu fechado, enuviado

se eu não tivesse tempo
não seriam nada mas…
nesse dia eu parei
nesse dia eu olhei

e eles bailavam no ar
tão leves como ervas
tão leves quanto belos

não olhava, porque não podia,
um pássaro só
meus olhos não conseguiam
isolar apenas um

eu desliguei esse infernal
botão do pensamento
desliguei essa máquina
que quer ir fracionando supostamente para entender

então várias figuras se formaram
triângulos efêmeros
quadrados provisórios
letras do abecedário

e as aves costuravam no céu
a cada segundo uma nova imagem

então do céu veio, de graça
uma lição de geometria:
uma imagem se forma a partir de três pontos

tentei olhar novamente um pássaro apenas
e ele só não era nada.
com dois pontos pretos, apesar de retas perfeitas
nada com elas fazia

retas que vão a qualquer lugar
retas que vão ao infinito
sem nunca serem nada
que não têm a beleza da mais bela reta
que não é sequer reta, a linha do horizonte.

então, entre um, dois e três pontos
lembrei-me de mim e dos meus contos
escrevi sobre brilhantes homens sós
casais que se unem fortes como nós
e a natureza agora me ensina a visão do vós.

vós…

se em família eu digo vós,
somos no mínimo três,
como as aves no céu

várias figuras
várias letras
várias formas

a dois uma família é bilateral
o homem concebe a ideia da mulher
a mulher concebe a ideia do homem
e fica uma palavra contra outra.

a três
a mulher concebe o homem
e a relação do homem com o filho
e a relação filho com o homem

o filho pensa sobre o pai
o filho pensa sobre a mãe
o filho pensa sobre os pais
e por aí a coisa vai

e para quem olhar essa família no céu
a depender do momento
a depender do ponto de vista
poderá ter ela infinitas formas e cores.

um elemento a mais e tantas novas combinações…

e eu achando que olhando os pássaros
olhava apenas os pássaros.



 


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