Pedro e a pedra: preciosa é a vida.

– Mãe, o que é isso? Perguntou o menino, levantando a palma da mão direita, onde estava uma pedra rubi que brilhava como um espelho quando este mede forças com sol.

– Minha nossa, meu filho. Isso deve valer muito dinheiro. Chama-se pedra preciosa. De onde veio?

– Eu vi caindo da bolsa de uma mulher que estava no ônibus. Mas quando eu me dei conta, ela já estava na calçada. Não deu tempo de avisar.

Ele era um garoto de 8 anos. Suas palavras, contudo, lhe davam pelo menos aquela idade em que garotos começam a perceber que as meninas não são, em verdade, suas rivais nesse mundo, mas, antes, fonte única de saborosas alianças. Mas era só o jeito maduro e firme de falar mesmo. De resto, os mesmos brinquedos e aquela bola de capotão que guardava, no couro, as marcas que lhe provocaram um certo grupo de “pernas de pau”, como carinhosamente poderiam ser chamados os amigos do menino.

– Eu não tenho nem ideia de quanto isso vale, filho…

– Mas mãe, eu não perguntei quanto vale, eu perguntei o que é isso!

– Bom garoto! Pegou sua mãe… Já que é assim, vou dar um nó em você também: cabe a você descobrir o que é isso…

O menino sorriu com o canto da boca e balançou a cabeça, levemente, por duas ritmadas vezes… Pensou: “beleza, você vai ver…”.

A busca começou pelo pai, que tomava vinho na sala ao lado e via o jornal. Exausto, com o nó da gravata esgarçado, ele encostou as costas no sofá e chamou o moleque para sentar no seu colo.

– Desembucha, figura, o que é que você quer me perguntar?

– Pai, o que é isso?

– O que você acha que é?

– Na verdade, eu acho que não é nada. Mas é um nada que é de alguém. Eu vi cair da bolsa de uma mulher.

– Filho, isso para você, uma criança, realmente não é nada. Mas tem gente que dá um valor para uma coisa dessas… Para você ter uma ideia, acho que eu tenho que trabalhar um ano para comprar uma dessa.

– Ok, pai. Você e mamãe já disseram que custa muito. Mas eu ainda não descobri o que isso é.

Depois das prosas em família, o caminho óbvio para o início dos trabalhos investigativos foi seguido por alguns dias…

Teve o dia que choveu. Passou o dia da provinha de português. Veio o dia de levar a bola de capotão para o colégio. Nada. Em nenhum daqueles dias a morena do vestido vermelho passou na frente daqueles investigativos olhos cor de terra. Quanto mais tentava, menos via naquelas pessoas do Expresso 678, a moça que procurava.

Então, como que por hipótese, como que para treinar, pensou na sua bola, que estava presa no peito de cada um dos seus pés, enquanto, sentado, ele continuava a procurar dentro do ônibus… “O que é essa bola?”

“Essa bola”, e o menino viajou dentro de seu próprio 678, “é aquela que eu ganhei da minha madrinha, de aniversário. É a que eu levo à escola para jogar com meus amigos. É minha companheira até quando eu paro na arquibancada do ginásio, com um dos pés em cima dela, para ver a Bianca jogar….” (O tempo diria a ele porque, odiando-a, estava sempre ali, à volta dela… Ainda que xingando, mesmo que debochando, o fato é que ele sempre estava ali.)

Um buraco na pista o fez voltar a si…

“Ué, se eu tirar o eu, a bola não existe. Que curioso…” Havia chegado ao ponto de parada de sua viagem interior. Esperou, então, a hora de ir para casa, a fim de testar os conhecimentos aprendidos.

– Mãe, o que é isso? – E apontou a gorduchinha, logo que retornou à casa…

– É uma bola.

– E?

– E nada, é uma bola.

– É a minha bola, mãe! – Vociferou, com os olhos esbugalhados, o peito avantajado e a voz grave.

A bola sem Pedrinho não era a bola. Aquilo, portanto, sem a morena, não era aquilo.

Vestido vermelho. Cabelo negro. Andar de passarela. Eu achei o que você perdeu. Pedro. Colégio Pequeno Príncipe”.

Esse era o anúncio que ficou do lado do cobrador do Expresso 678 no dia seguinte e em diante.

Nas três manhãs que se sucederam, quatro morenas, três de vestido vermelho, procuraram por aquele tal de Pedro. A primeira se decepcionou quando a recepcionista da escola disse que Pedro tinha apenas 8 anos. Procurava um amor. Pensou que tinha achado uma cantada de um garotão de 16 ou 17. Perdeu tempo. A segunda buscava uma bolsa que perdera nem sabe onde. Foi também logo despachada, já que Dona Clotilde sabia que o que Pedro tinha achado cabia na palma da mão. A terceira, que procurava uma pedra preciosa chegou mais além: viu Pedro.

– Procuro uma pedra preciosa.

E Pedro lembrou do que lhe havia dito sua mãe, logo no primeiro dia. Em princípio era ela. Não ter visto o seu rosto – ou tê-lo visto, mas sonhado com tantos outros nas noites anteriores  – o deixou confuso.

– Por que não entregou a ela? – Perguntou Clotilde, quando o menino lhe mostrou o que tinha no bolso, logo que a porta da recepção se fechou.

– Não era ela, tia. Não era. Isso não é uma pedra preciosa.

– Alguém aqui, um tal de Pedro, pode ter achado o que eu preciso para salvar meu filho. É muito urgente, é como se a vida dele estivesse escapando da palma das minhas mãos. – Foi assim que a quarta morena, cujo vestido vermelho já estava de novo no guarda-roupa, se anunciou no interfone, enquanto Pedro ia voltando para sala de aula, mas não tão longe a ponto de não ouvir.

“É ela! É ela!”, pensou o garoto.

Ela entrou. Pedro sorriu e colocou aquilo na palma de sua mão direita. Ela chorou, indescritivelmente emocionada. E não derramou lágrimas só. Pedro descobriu, naquele momento, que não se chora apenas pela dor que fisicamente se sente. Sabia agora, que não apenas derramaria lágrimas por uma perna quebrada ou um ouvido doído. Abraçou as pernas da morena, deu uma volta nelas, bem entre o joelho e o quadril e disse “que bom que você apareceu”.

Se tivesse perguntado, Pedro teria ouvido que aquilo operaria o filho da morena, que estava no hospital. A pedra geraria vida, sem deixar de ser pedra.

Após a intervenção cirúrgica de sucesso, aquilo, já não sendo mais aquilo, adornaria o pescoço de outra dama de vermelho. Esta, por seu turno, casada com um neurologista de prestígio, para quem a mão livre do mercado e do comércio tudo resolve e tudo equaliza de uma forma justa.

Outras investigações apareceriam ainda. Com elas o menino, desenhando os passos do homem, descobriria que salvar uma vida, como ele fez, para certos adultos nem sempre é um gesto de caridade.



 


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