Quando Jesus disse: ‘Meu Deus’!

Câmara dos Deputados. Casa dos representantes do Povo. Ebulição nas plenárias. Em pauta, o tema da liberdade sexual e da constituição de família.

Pelos corredores da Casa, os advogados do povo ostentavam livros grossos sob os braços: uns com a Constituição e outros com a Bíblia Sagrada. Abertos os debates, os liberais optaram por não lançar mão de uma questão preliminar, renúncia que talvez tenha sido uma temeridade instrumental, processual e regimental. Acharam inócuo retomar a celeuma sobre a existência mesmo de Deus e de seus profetas. O erro de cálculo, disseram os analistas, foi o de não apenas livrar os oponentes do monstruoso encargo de provar a existência do Soberano – e, por consequência, de demonstrar por a mais b o fundamento de validade do documento milenar –, mas também o equívoco de abrir mão de uma forma legal de postergar por mais algum tempo o trâmite legislativo da proposição conservadora que vinha galgando espaço rapidamente. Poderiam assim, diziam ainda tais analistas, arrastar os procedimentos quiçá até o fim da legislatura sem nem mesmo discutir o mérito da questão, o que já seria uma vitória nesses tempos de conservadorismo em voga.

Nos bastidores contudo há quem diga que não foi um mero equívoco de estratégia. Os liberais teriam temido, do mesmo modo, que os conservadores começassem a escalar a pirâmide do ordenamento jurídico, subindo com cuidado o primeiro degrau dos decretos, cuja legitimidade repousa na autoridade das leis ordinárias. Depois fossem ascendendo das leis ordinárias às leis complementares, emendas à constituição para chegar no rarefeito nível da própria Constituição. E então lá se lançassem a patamares ainda mais elevados e abordassem o tema da Assembleia Nacional Constituinte e sua respectiva eleição e fizessem, surpresos, a pergunta: quem legitimou a eleição que legitimou o Constituinte Originário, tão reverenciado por Vossas Excelências, mas que é tão abstrato quanto o nosso glorioso e magnânimo Divino?

Apostaram forte na prevalência da Constituição sobre a Bíblia.

Havia na Casa um deputado liberal que, apesar de sua ferrenha convicção sobre a liberdade, seja ela qual fosse, nisso incluída, claro, a sexual, cria ferrenhamente em Deus e no seu pupilo Jesus Cristo. Não encaixava na sua cabeça, todavia, a interpretação que a Suprema Corte Católica dava àquelas velhas embora belas escrituras. A sua timidez no enfrentamento da bancada religiosa começava a gerar desconforto entre os correligionários – e ele mesmo começou a notar isso.

Precisava resolver essa questão o quanto antes.

Ia para sua casa de cabeça inchada, com as expectativas dos seus mandatários nas costas. “Tenho que honrar o voto daqueles que me constituíram, mas… Como confrontar as determinações do Vaticano?”. Seria como se ele, deputado investido nas funções com base na Constituição, desafiasse a Suprema Corte do país, órgão responsável por guardar e zelar por essa mesma Constituição. Como afrontar a instituição que reconheceu e celebrou seu matrimônio (a tal união indissolúvel entre um homem e uma mulher) e batizou seus filhos, transmitindo-lhes ensinamentos em seu entender tão preciosos?

Viveu sob esse conflito até o final da legislatura, agradecendo aos céus, sim, aos céus, a não colocação do tema em plenário para votação.

Ocorre que a vida não aceita essas esquivadas ardilosas. A vida quer respostas. A vida quer decisão. Assunção de posições e comprometimento. Reelegeu-se e o tema voltou à pauta. Foi eleito líder da bancada liberal. Não teria como fugir.

Nos primeiros dias foi vítima de fogo amigo. O material bélico foi distribuído por seus próprios “aliados” à imprensa por baixo dos panos: era acusado de fazer jogo duplo com os religiosos. Seu passado católico foi levantado, sua vida revirada e até mesmo suas fotos como coroinha foram parar nas páginas dos jornais. Todo o seu passado de defesa dos direitos humanos, das causas em prol das mulheres, dos deficientes, dos trabalhadores e até, vejam só, da liberdade de imprensa, foi sumariamente colocado embaixo do tapete, ou dentro do armário, como queiram. E ele precisaria sair do armário para provar sua verdadeira identidade: um liberal convicto!

O tempo mais uma vez lhe concedeu uma chance. O mundo parou com o anúncio da mais revolucionária das descobertas: uma fundação patrocinada por um trilionário anunciou ter feito da ficção realidade. Teria enviado um homem para o passado e o trazido de volta. — Impossível! —, disse a opinião pública global em uma primeira reação de assombro, embora o suporte do líder das listas de maiores fortunas do planeta tenha colocado a pulga atrás da orelha de todos.

Democrata e com um senso de universalismo inquebrantável, esse milionário disse que cada nação teria o prazo de trinta dias para eleger, segundo o procedimento previsto na legislação interna, um representante para ir até um longínquo deserto onde as experiências foram ultimadas, local em que os delegados poderiam obter as provas do sucesso da expedição.

Eis porque o tema da liberdade de opção sexual e de decisão da forma de constituição da família (ou ausência dela) foi suspensa até segunda ordem.

Os liberais, por convicção e história, sempre destemidos e abertos a novidades não quiseram abrir mão dessa oportunidade de ter um representante nessa revolução incrível – e ao mesmo tempo assustadora – que faria a criação da internet uma mera coisa de criança. O caso era que nosso parlamentar, angustiado e carente de uma trégua no embate público, era quem, por força da normativa interna do partido, deveria concorrer à vaga. Seus problemas existenciais, contudo, mal deixavam espaço e energia internos para dar-se conta da dimensão da questão. É como dizem, “nossos problemas são sempre maiores que os problemas da humanidade, embora a narrativa da humanidade se vingue de nós, tomando-nos como insignificantes ao longo de sua história, salvo raras exceções”.

Para o seu pesar, foi eleito. Com margem apertada contra os conservadores, é verdade, mas eleito. Foi para casa todavia com a mesma questão de sempre. Parecia título de tese de doutorado: “Deus e a homossexualidade: os ensinamentos de Jesus e a vedação ao amor entre pessoas do mesmo sexo”. Esse poderia ser o resumo do que se passava em sua pestana.

Obcecado, esperou a esposa dormir e se levantou para ver gravações, pedidas previamente a seus assessores, dos últimos debates no parlamento. Queria achar brechas, pontos de fraqueza na argumentação do adversário para que, quando o tema voltasse à discussão, tivesse o golpe perfeito, a tacada certeira, para vencer a peleja. Foi quando, completamente absorto em encadear e problematizar cada fala proferida pelos oponentes, dentre os quais o próprio Presidente da Comissão, completamente focado nos argumentos expostos, tomou um susto que fez seu peito pular. Teria achado a solução, que estava escancarada na inscrição do broche aposto na lapela do tal Presidente conservador.

Na longínqua expedição, ressalvados alguns céticos, daqueles que não acreditam em nada e são contra tudo, a maioria dos delegados das mais diversas nacionalidades estava fascinada: pouco a pouco todos se viam mesmo convencidos de que o impossível se fazia realidade. O homem teria voltado ao passado. Após o domínio do deslocamento espacial em um tempo razoável, com o avião, e do espaço sideral, com as viagens espaciais particulares, agora o homem podia transitar entre gerações e épocas diferentes.

Cada um mostrava um interesse específico. Ver o mais longínquo ancestral da família! Ver os dinossauros! Seria possível ir tão longe? Ou mesmo só na história da chamada humanidade? Descobrir mesmo como se dominou o fogo… Eram tantas as imaginativas situações… Muitas perguntas que pululavam por respostas.

Quando os delegados começaram com as questões mais que marteladas em filmes de ficção-científica (vou poder alterar coisas do passado?), o milionário foi logo adiantando: o procedimento era muito, muito custoso financeiramente. Havia um histórico de falhas (e passava no projetor nomes de voluntários mortos nas expedições) e o modelo até agora exitoso permitia apenas a viagem de um passageiro, com avanço até, no máximo, o período pré-socrático.

Quais são seus propósitos, afinal? Por que estamos aqui?— perguntaram os delegados.

O chefe da incursão ao passado disse que, “agora que um programa seguro já estava em operação” , o filho não era mais dele. Era da humanidade. Disse que não teria feito isso apenas para seu interesse pessoal, mas para o bem das pessoas, para que a coletividade como um todo pudesse se beneficiar das vantagens advindas do sistema.

Adiantou logo, para a decepção de todos, que não era possível voltar para o passado com vistas a alterar o presente. Essa tentativa havia sido feita. Sem sucesso, todavia. Uma das máximas do homem, a de que não se pode voltar atrás, continuava de pé. Quer dizer, ao menos no sentido de que não dá para consertar erros cometidos no passado. O empreendedor se decepcionou nesse momento com a frustração nos olhos da maioria dos delegados. Quem sabe, pensou, se tivesse falado antes a sua ideia de escolher uma nação para encaminhar um representante ao passado. Teria havido maior interesse, certamente. Quando lançou finalmente a ideia, ouviu resmungos, ironias (“não somos professores de história…”). Provocou um dos que parecia mais inquietos no auditório a falar.

Para quê voltar ao passado se não podemos mudá-lo? Apenas para nos frustrarmos mais ainda? Com todo respeito, já temos decepções demais no nosso dia a dia. Vou te dar uma dica, isso cairá bem para o turismo, para documentários da televisão ou para, como foi dito, professores de história.
Senhores —respondeu —, o nosso presente é inatacável, incorrigível, mas podemos interagir com as pessoas do passado, conhecer lugares que não existem mais, será que os senhores não conseguem imaginar utilidade nessa conquista revolucionária? Vamos fazer um intervalo para pensarmos um pouco melhor e, então, retornamos para a continuação dessa reunião.

Logo que foi anunciado o intervalo, nosso deputado liberal correu para ter um particular com o trilionário. Não queria expor a ideia que tinha na frente de todos. Soaria lunático ou, no mínimo, pretensioso.

Pois não?
Permesso, eu tenho uma ideia, mas não sei se é possível…
Qual é?
O senhor disse que é possível voltar até o período pré-socrático, não é?
Sim.
Eu poderia falar com um Imperador Romano, por exemplo?
Na verdade, a coisa não funciona assim. Nós te programamos para voltar no tempo. Escolhemos a data e a pessoa viaja. Para falar com um Imperador Romano você teria as mesmas dificuldades que qualquer outra pessoa. Aí seria contigo. Quem gostaria? Marco Aurélio?, ironizou.
Era só um exemplo mesmo.
Aristóteles? Quer perguntar a opinião dele sobre algumas coisas?
Alguém maior ainda!
Não vejo como. Não há ninguém maior.
Sim, há.
Quem?
Jesus.

O empresário se esforçou para manter o decoro que a situação exigia.

Então o deputado tratou de explicar a situação em seu país. A discussão eterna entre os que defendiam coisas controversas mas o faziam em nome de Deus, de Jesus. Explicou sobre a questão da sexualidade, da discriminação contra homossexuais e que gostaria de, definitivamente, esclarecer a questão. — É mesmo a vontade divina? —Disse que buscava pacificar a questão no seu país, mas duvidava, daí não ter intervindo na reunião, que isso pudesse ter relevância para outros países, já que isso era uma questão interna do seu povo.

O homem reagiu com surpresa.

Mas homem de Deus, com o perdão da brincadeira, não vês que isso é sim universal? Os homossexuais ou qualquer pessoa que queira sair do padrão homem- mulher-filhos, são discriminados no mundo inteiro. Sim, as leis avançaram. Há menor resistência legal a uniões ou formas de vida sexual e familiar que fujam do roteiro convencional, mas a questão central se encontra no coração das pessoas. Amam-se mesmo todos, independente de sua opção? Acho que ainda não chegamos a esse estágio… Se você conversasse com Jesus, talvez ele pudesse colocar um pá de cal na questão. Mas e se…?
O quê?
E se Jesus dissesse mesmo que essas pessoas não devem ser aceitas? Esconderíamos isso de todos?
Então jesus não seria Jesus! — respondeu de pronto o deputado, na feliz ânsia de talvez se desprender definitivamente de apegos religiosos e dormir em paz com sua convicção racional e humanística. — Não podemos esconder nada de ninguém na época em que vivemos —, disse.
Seria o caos se Jesus não fosse tão benévolo como se pinta por aí, não?
Aí o problema já não é mais nosso! —, disse, pensando no Vaticano.

O período da tarde foi destinado ao convencimento dos delegados e colocação em votação da proposta apresentada pelo deputado. Claro, uma vez posta alguma ideia na roda, outras apareceram apenas para não deixar que o outro vencesse. Um congressista de pais tradicionalmente adversário, por exemplo, formulou uma proposta estapafúrdia só para atrapalhar o caminho do oponente.

A situação conheceu também sensibilidades religiosas. Adeptos de outros credos sentiram-se discriminados. A escolha de um cristão como primeira opção poderia até mesmo intensificar os conflitos atuais, suscitar ataques terroristas ou a eclosão de guerras. Quando os debates arrefeceram, pelo extremo cansaço dos participantes, a proposta do deputado venceu, por maioria. Definiu-se, também, que ele partiria dali já, tudo para evitar comoções internacionais em caso de anúncio prévio da deliberação.

Falei com Ele! Falei com Jesus! —, disse o deputado no retorno aos trabalhos de congressista. A sessão mais que extraordinária dos parlamentares foi transferida para um estádio de futebol para que o maior número de pessoas possível pudesse acompanhar em dois telões de grandíssima resolução o anunciado vídeo da conversa entre o deputado e Jesus.

O vídeo mostrava uma árida e ensolarada terra. Por onde se olhava se via pedras, areia e, raramente, uma brisa a movimentar pequenos arbustos. Com suas roupas de mais de dois mil séculos adiante, o deputado constatou que despertava atenção demais no local, o que militava contra si, e foi logo se despindo para deixar-se ao sabor de uma pequena tanga remanescente, o que causou furor no estádio. Embora Jesus não se escondesse de ninguém, o deputado percebeu que estava ficando difícil obter informações dele. As pessoas o olhavam desconfiadas, suspeitando estar ele a serviços dos romanos. Com menos roupa, teve mais êxito.

O deputado adentrou na cabana que lhe foi indicada após muitos encontros e desencontros. Não sabia para quem dirigir a palavra. Havia vários homens em círculo de sorte que não era presumível qualquer hierarquia entre eles e, consequentemente, a imediata indicação do “filho do homem”. Entrou curvado, pediu licença, arrastou seu pé em bolhas para dentro da cabana e perguntou, com respeito: “Com licença, procuro Jesus”.
Pois não homem, qualquer um de nós pode ser Jesus. O que você tem a dizer a ele?
É particular, é privativo.
Sendo assim, não poderá ser. Jesus não faz reuniões reservadas.
É que a situação é especial, talvez só ele creia em mim, acreditaria de onde venho.

Um homem de cabelos negros, com uma pele que não podia mesmo ser mais clara pelo constante andar sob sol escaldante, se levantou e disse que “está bem, dar-te-ei a confiança que clamas”. Levantou em paz, passou seu braço sobre as costas do homem e o levou para fora da cabana. Ajeitou duas pedras, uma em frente da outra, indicou que sentasse e disse: “pois não, meu irmão, o que lhe aflige, em que posso lhe servir?”.
Senhor… — no que foi logo interrompido.
Porque me chamas como se eu fosse meu Pai? Ninguém aqui na Terra me chama assim! Por favor, deves ter ouvido o tanto que peço para que as pessoas não me diferenciem. Toque-me: vês algo diferente em mim? Porque achas que me serve? Porque toma-me por Senhor?
Eu não sabia, me desculpe Senh., digo, irmão.
Pareces realmente não estar habituado com os costumes daqui. De onde vens?
É aí que começa a parte que eu preciso que o senhor, quer dizer, você, digo, Jesus, acredite em mim…
E por que é assim?
É que eu venho de um lugar que seu Pai, digo, o Senhor, o verdadeiro, seu Pai criou e que, com todo respeito você (posso lhe chamar de Je?) sequer imagina que existe. — Jesus franzia a testa. — Acreditas que venho de longe?
Longe quanto?
Longe em vários sentidos. Mas veja, não direi a que venho a menos que creia que falo sério, que digo verdades. Sem fé, tudo que fiz para vir vê-lo será em vão.
Irmão, pode confiar em mim, eu sei o que é falar e não ser compreendido, ver nos olhos e no coração das pessoas a falta de fé. Vejo que estás em minha frente de corpo e alma. Em que posso lhe ser útil?
Eu venho de uma terra que teu pai criou e que você nem sabe que existe!
Como é isso?
Já foi até o mar? Já? Então, se você seguir reto toda a vida vai achar terra de novo.
Sério? Terra igual a essa aqui? Com plantas, animais e pessoas como as daqui?
Sim, mais ou menos.
E como você veio? Nadando?
Humm., talvez eu esteja pedindo demais, mas você pode não fazer tantas perguntas?… Não seja tão curioso, teu Pai já lhe deu bastante conhecimento. Vamos combinar que eu pergunto, senão as coisas vão se complicar e complicar cada vez mais. O deputado pensou na câmera escondida que trazia sobre a orelha e pensou que deveria ser franco, não podia omitir fatos relevantes do filho do Cara. Suponha que as respostas às perguntas que farei sejam na verdade uma mensagem para o futuro — disse para amenizar sua consciência.
Mas irmão, tudo o que faço no meu dia a dia é tentar deixar mensagens boas para o futuro, porque o pessoal daqui não me entende… Tirando o pessoal da barraca, que são da minha inteira confiança, digo, quase todos o são, ninguém leva fé nas coisas que digo.
Tá, Jê, mas o negócio é o seguinte. Eu venho do futuro. Eu só vou nascer daqui a 1970 anos.
Como assim?
Eu fiz uma grande viagem de volta ao passado, porque estão dizendo um monte de coisas em seu nome lá na frente e eu queria saber se isso é verdade mesmo.
Você não acha que está pedindo um pouco demais para mim, não? Acreditar nisso talvez vá além de minhas capacidades.
Tá, e transformar água em vinho é tranquilo de crer?
Tá, mas eu faço isso mesmo, quer ver?
Ok, deixa pra lá, vou-me embora. — O deputado fez um joguinho inspirado em filmes e novelas do seu tempo, para o que Jesus talvez não estivesse vacinado.
Tá, Tá, me desculpe! Eu acredito em você. É que são coisas muito novas.
Viu, quem sabe com isso você compreenda melhor porque as pessoas te crucificam tanto, digo, metaforicamente, claro, é tudo muito novo pra elas.
Entendo. Mas por favor, diga então o que falam em meu nome no futuro.
Sabe, são muitas coisas bonitas, sem dúvida, o poder do amor, da fé, do sacrifício, da renúncia…
Que legal! — Vibrou Jesus, acreditando que seu trabalho realmente não estava sendo em vão. O deputado, ao ver a alegria infantil do seu novo amigo, pensou ter dado o primeiro feedback da história, mas assim como ocorre nas reuniões de avaliação com empregados nas empresas, também aqui depois dos elogios vem as notícias más. Jesus, que não era bobo, se antecipou. — Ok, mas se fosse apenas isso, você não teria vindo de tão longe — e Jesus pensava se longe seria a melhor palavra para quem veio de uma terra longínqua, mas também de outro espaço de tempo, do futuro…
Pois é, é que temos uma coisa lá no futuro que eu não sei se vocês têm aqui. Pelo menos até agora eu não vi, embora com a minha visão viciada do tempo em que vivo, tenha suspeitado de algo.
E o que é?
Vamos começar pela gramática. O que é sexual?
Como?
S-E-X-U-A-L?
Não sei.
Humm… Como vocês se reproduzem?
Ora, através do amor!
É, a conversa vai ser longa… Sabe, no futuro separam-se os termos amor e a união da carne, que são tratados de forma completamente distinta, sendo que a última recebeu o nome de sexo. Como o sexo era forma de reprodução entre o homem e a mulher, então o termo sexo passou a definir também o tipo de ator dessa relação, de um lado o sexo feminino e de outro o sexo masculino.
Deixa eu ver se eu entendi — disse Jesus. — Tá, então um homem e uma mulher fazem amor e sexo?
Isso! Quer dizer, mais ou menos isso.
Mas porque então dar dois nomes para uma mesma coisa?

O deputado coçou a cabeça e pensou que a conversa não seria tão fácil e direta como ele pensava. — É que as pessoas lá ( e já vou logo dizendo que a culpa não é minha) tão conjugando a carne sem amor.

Jesus olhou para baixo e chutou uma pedrinha, desapontado.

O que é a palavra homo?
Ah, sim, essa é mais fácil, basta ver homogêneo: mesma origem. Logo, homo é igual, do mesmo!
Boa Jê! O deputado respirou fundo e disse tudo de uma vez: lá no futuro (e veja, não sei se vocês tem aqui) temos os HOMO — fez uma pausa, para ser acompanhado no raciocínio — SEXUAIS.
Hum, entendi, é a conjugação da carne entre o mesmo sexo?
Isso!
Tá, mas e qual é a questão?

O deputado se viu surpreendido levemente pelo rebatimento da indagação assim, tão de pronto.

É que dizem que o Senhor, quer dizer você, mas no fundo Ele também, o Senhor, que vocês têm a opinião de que…. Bom, peraí, vamos do começo… Jê — e pegou na mão do amigo — você está pronto para morrer em nome das coisas em que acredita?
Sim, claro!
Tá, então é o seguinte, você vai morrer, o ano que vem. Dá uma acelerada nas tuas coisas aí que Roma tá na tua cola.
É eu sei.
É, tô ligado que você sabe muito, até sobre seus homens de “confiança”. Seguinte, depois disso, da tua morte, o pessoal vai escrever um livro gigante dizendo que tudo que tem a ver com tua época, com teus ensinamentos, estará contido nele – e só nele.
Entendo.
Então, lá no futuro eu sou o representante do meu povo, das pessoas do meu povoado.
Sei.
E entre eles há pessoas daquele tipo, com aquelas opções que te disse.
Sei, os homossexuais, é isso não é?
Sim. E são também vários os representantes como eu, cada um eleito por votos do povo, dos seus pares na comunidade.
Democrático, bem grego isso aí, não? Bacana…
É, não é sempre tão lindo assim, mas é o jeito que as coisas funcionam lá. Os meus correligionários pegam esse livro grande que lhe falei e dizem que lá está escrito que você (e teu Pai por consequência) simplesmente abominam a união dessas pessoas. Mas eu, sinceramente, não sei se a coisa é por aí… Então, logo que inventaram essa máquina de voltar pra trás, eu pensei em vir te perguntar diretamente isso (e digo que eu vou ter como provar isso lá para eles, só não te digo como senão eu vou ter que te explicar um monte de outras coisas que você não vai entender). E então, vocês tem pessoas assim aqui? Se sim ou se não, qual sua opinião a respeito?
Bom, vamos por partes. Primeiro de tudo, eu sempre tenho por linha de conduta ouvir, ouvir muito e não pré-julgar. Veja, tenho visto algumas coisas aqui e ali que vão nessa linha do que você disse, mas eu não tenho uma opinião formada a respeito. É que até agora eu tenho visto tanta coisa mais importante que isso, digo, não que isso não seja importante, não tenha seu valor, o que eu quero dizer é que há aqui nesse mundo em que vivo reais problemas como ganância, corrupção (veja Roma, por exemplo!), ambição desenfreada, falta de amor, de compaixão, enfim, tanta coisa ruim que eu ando mais focado nisso. Não tenho pensado em muita outra coisa. Ainda mais que já tinha essa suspeita, que você agora confirma, de que meus dias estão contados. Ainda assim me proponho a pensar contigo, já que no futuro essa questão será importante.
Nem diga, você não tem ideia de quantos foram mortos pelo que dizem que você disse.
Não é bom pensar no que já passou, sempre digo isso. Quer dizer, mas nesse caso não passou ainda…ou passou?
Tecnicamente não, mas de fato sim, ao menos por ora, tendo em vista que ainda não descobrimos como mexer no futuro.
Talvez meu pai não queira mesmo. Não sei se seria bom. Os fatos, como as pessoas, precisam descansar, precisam morrer. Mas vamos ter foco, o que tanto dizem que eu digo?
O pessoal foca bastante na questão do crescei-vos e multiplicai-vos…
E o que tem a ver uma coisa com a outra?
Ah, é que não dá (ao menos não inventaram ainda) um jeito de reproduzir sem ser entre um homem e uma mulher…
E?
E dizem que se vocês, se realmente dizem que a gente tem que crescer e se multiplicar, e se só se faz isso com homens e mulheres, dizem que o senhor proíbe a união entre pessoas do mesmo tipo.
Meu Deus! Quantas inferências em meu nome não? O pessoal aqui faz muito isso… Diz que fulano disse isso ou disse aquilo… Um horror. Precisamos ter um jeito de registrar melhor as declarações que faço…
Agente cuida disso — pensou o deputado olhando pra câmera — mas vai por mim, não é sempre que adianta…
Tá, eu tenho um princípio de opinião formada para o teu caso… Mas para não incorrer em erro, me responda a algumas perguntas: por que as pessoas do mesmo tipo se unem?
Elas juram de pé junto que somente pelo mais puro amor, Senhor, digo, Jesus!
Perfeito. E você que diz que sabe até quando eu morrerei (pode falar, é aquele negócio da cruz, não é?, sorriu de mansinho, irônico), me responda: eu por acaso terei filhos?
Ao que se sabe, não!
Pois então meu amigo, veja quanta confusão. Já estou vendo que essa minha ideia de deixar uma turma aí para difundir meus ensinamentos talvez não seja tão eficiente assim, vou bater um papo com o Paulo, mas não sei terei tempo até que os romanos achem o Ju…quer dizer, não sei se terei tempo… Mas o fato é que eu não disse nada disso. O pessoal tomou a interpretação mais simplista e pobre possível do que eu realmente digo aqui e ali.

Jesus suspirou e mirou a linha do horizonte.

Crescei-vos, por exemplo, é crescer como ser humano, como pessoa ciente da plenitude da vida e de suas várias acepções e possibilidades, sem qualquer tipo de limitação ou definição. E multiplicai-vos é o passo seguinte, que é levar o conhecimento aprendido, a grandeza alcançada, aos demais. Veja, se fosse fácil assim, colocar o negócio dentro da mulher e fazer filhos, eu ficaria fazendo isso até a morte. Não, amigo, a vida é bem mais do que isso. Toda forma de amor deve ser respeitada. E que bom que, no futuro, as pessoas estão reconhecendo novas possibilidades. Sua missão é então, meu amigo, desdizer as barbaridades que tem sido ditas em meu nome. Você será o meu apóstolo do futuro. Talvez tenha até um lugar para você. Daí mantenho a ideia original de doze. Até quando você fica? Se eu tiver mesmo que partir logo, farei um grande jantar de despedida. Quer ficar?
Não sei se poderei. Me disseram que tenho pouco tempo.
Gostei de você. Você é articulado e tal…
É que, como você, eu também falo muito em público.
Ah é?! Que bacana, meu apóstolo! Tem mais alguma coisa que você queira saber de mim?
No mais, só curiosidades mesmo, sobre você, quer dizer, mais até sobre seu Pai.
Sei.
Vem cá, teu Pai te deixou a Terra e foi fazer outros planetas? Nós estamos descobrindo várias coisas. Primeiro que a Terra é uma bola e que gira em torno do sol e que, ao lado da terra existem outros planetas também girando em torno do sol. É uma coisa louca. Chamam isso de sistema. O Sistema Solar. E há muitos outros. Sério, Jê, tem muita coisa. Mas não adianta, por mais que a gente pesquise, a gente não sabe quem tá por trás de tudo isso e porque está fazendo isso. Isso é coisa do teu Pai, não é?
Quando meu Pai me mandou para cá, disse que eu tinha uma missão, que ninguém ia entender muito bem o que eu tinha a dizer e que iam me perseguir. Sobre o que ele fez depois de acabar a Terra (disse ele para mim que tinha deixado tudo redondinho, funcionando perfeitamente) eu tenho apenas algumas suspeitas… Posso compartilhar minha opinião com você?
Mas claro!

O público no estádio estava eletrizado com as prometidas opiniões de Jesus sobre Deus, a criação das coisas, outros planetas, enfim, tantas outros pontos ainda pendentes dois mil anos depois. Só que a imagem começou a se desintegrar e o deputado explicou que tinha um prazo para retornar. Essa era a condição. Caso contrário, poderia ficar preso lá para sempre. Foi bem aí que ele voltou para o presente.

Ao fim de tudo, foi perguntado como tinha tido aquela singular ideia, de escolher ir encontrar Jesus:

Vi no broche do Presidente da Comissão o lema de sua igreja: “Jesus está voltando. Volte antes para ele!”.



 


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