Réveillon

– Tá valendo a viagem de Réveillon!
– Como é que é?
– Se você conquistar aquela gata, a virada do ano é na faixa!

Bernardo era um cara de boa. Bonitão, mas bem de boa. Não se importava muito de azarar as meninas e tirar vantagem das benesses que a natureza lhe conferira. O problema é que ele nunca foi muito chegado em trabalhar pesado. A vida dele era ali nos metros quadrados que atendiam ambos pelo mesmo nome: Bairro e Praia de Copacabana. Gostava muito dos amigos também, que por sua vez, adoravam viajar. Como bater pernas mundo afora custa dinheiro e mulher nunca é demais – longe disso! – dá para imaginar se o desafio foi ou não aceito.

Ela era mesmo fascinante. Os cabelos mereceriam uma história à parte. Propaganda de shampoo, só que de verdade. Negros, lisos, finos, brilhosos. Sorriso de modelo, perfeito. Pele corada. Mulheres como ela são expostas ao lado de carros zero quilômetro feiras de automóveis. Mas não percamos tempo com a pérfida moral dessa indústria. Ideal, ela era tudo que nossos sonhos sequer são hábeis a desenhar. É que ela não pertence mesmo ao mundo de terráqueos comuns. Onírica, só que de verdade.

Creio que os deuses que bolaram a praia fizeram artesanalmente uma areia tal que, fina e fofa, exige das musas apenas o esforço necessário para elas bailem com doçura sem deixar de enlouquecer com o movimento muscular de suas coxas. Bianca… Ela caminhou assim, com uma certeza sutil, até a barraquinha que vendia água de coco. Bernardo apertou o passo e chegou mais ou menos ao mesmo tempo.

Tem coisas que não dá para negar. Com aquele bafo etílico, princesa nenhuma ia acreditar no que o bonitão ali desejava: uma água de coco?! Mas não é que ela deu prosa…
­- Salve! – Ele elevou o coco, segurando os canudinhos com os dedos, antes da primeira golada.
Ela não disse nada, virou de costas e saiu com aquele… rebolado, fiquemos assim …
Sabe quando a mulher não diz nada e diz tudo? Às vezes é bom … às vezes é ruim… Mas nesse caso, Bianca “disse” com todas as letras… “vem atrás que eu te dou um molezinho”.

A vivência de praia pode não dar dinheiro, mas propicia a fluência no idioma Sedução. Bernardo, menino do Rio, ia inocente em caronas assim quando tinha quinze, dezesseis anos. À época, desbaratava atrás da caça ante o mínimo sinal de apetite. Pós-graduado, deixou de sair desarmado. Dispunha de arsenal avançado. Coisa de superpotência:
– Ei, moça! Um amigo meu quer conhecer sua amiga… Ele acha ela linda demais! Não pode ver uma loira simpática como ela que fica doido, apaixonado…

As mulheres competem e ponto. Dizer para a morena mais sensacional que Copacabana viu em todo o verão que você não está a afim dela, que quem se interessou por alguém foi o seu amigo e que ele tá caidinho por uma loira, é o mesmo que cortar a linha de uma pipa e deixar ela à deriva, caindo aos poucos do céu para, abatida, raspar o chão. É nesse momento que ela lembra do menino descolado que perdeu para uma loirinha no colégio e se desinfla, se apequena e volta ser apenas… mulher. Isso dura normalmente uma semana pra fubangas, um dia para mulheres normais, uma hora para as beldades da zona sul e, pra aquela morena, apenas dez segundos. Há que aproveitar!

Bernardo se portou como manda seu manual. Fez-se acolhedor no instante de fraqueza. Fitou-a nos olhos, fraternosamente. Começaram a abordar amenidades. Sorriram. Mãos tocaram acidentalmente antebraços (ah, a linguagem corporal…) e o resto é cena de novela…

Quando o coco de Bernardo estava quente, ela lembrou da conversa de outrora:
– E o seu amigo?
– Ah, esquece!, piscou. Vamos curtir esse momento especial.

Três visitinhas de uma tarde em seu apê e Bianca, acredite, parecia não ser a mais bela morena da estação. Com o desfrute, Bernardo achava a cada dia pelo menos cinco mais estonteantes que ela. Longe do serviço delivery estar sujeito a queixas, mas é que o Bernardo não gostava de repetir a dieta. Tinha convicção de que isso não lhe fazia bem. Ele, no entanto, havia caído no “erro do segundo encontro” com Bianca…Erro que não cometia há tempos…

 – Eu vou ter que viajar a trabalho por mais de um mês… Melhor não nos vermos mais. – Disse Bernardo. Fingiu um sincero sofrimento ao vivo, mas deu socos no ar e dançou um twist fervoroso quando ela se foi. “Liberdade e Reveillon garantidos!”, gritou.

Solteiro no cruzeiro, os amigos dobraram a aposta: como conquistar a mesma mulher, tendo dado aquele fora? “Duvido!”, diziam eles.

Bernardo não entendeu porque a Bianca estava dando mole de novo! Creditou tudo aos seus dotes físicos e seu sex appeal. Levou-a para a cama novamente. Fácil, fácil! Ela, que até então era a mulher mais cobiçada do navio.

“Elas vão me pagar aquele colar maravilhoso!!!”, ela se excitava mentalmente no pós-coito, rindo-se toda por dentro, enquanto pitava um cigarro de menta. “E nem foi um sacrifício tão grande…”, expirava a fumaça, olhando para o peito talhado de Bernardo. Ele dormia sobre os colchões macios da conquista, sem suspeitar que valia muito mais no mercado paralelo das parceiras dela…
É amigo, Bernardo era peixe pequeno!



 


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