Salve-me (ou não)!

Carolina e Raquel estavam na sala do escritório a lembrar o quanto tinha sido pesado o trânsito da manhã. Protocolares como nas conversas de elevador, as frases tinham ali como função única a de romper o silêncio. “Que trânsito hoje, não?”. E assim esse tipo de colóquio fluía normalmente a cada fim de tarde, tal como um condenado ruma para o pelotão de fuzilamento: com caminho definido e morte certa. O fim desse diálogo, como em tantos outros dias, anunciou o término do expediente e veio acompanhado de um “amanhã tem mais!”. Nessa tarde, no entanto, a frase encerrou um papo difícil que, inusitadamente, as aproximou.

Raquel está casada, tem dois filhos em idade escolar. Gosta de se divertir com os amigos e de receber pessoas em sua casa, ao som de música e farta comida.

Carolina, que se julga realizada profissionalmente, naquela manhã havia enfileirado seu novíssimo utilitário esportivo em uma das vias expressas da capital e aguardado, por cerca de cinquenta minutos, o momento de guardá-lo na garagem privativa do prédio comercial.

As duas se cruzam com frequência no ambiente de trabalho. A tarefa de uma está relacionada com a da outra. As condutas de uma podem, sem dúvida, impactar nas atividades da outra. Elas contudo fingem que não se veem. Barreiras artificiais as distanciam.

Raquel lida com os materiais que a outra trabalha todo o dia. Após o expediente, ela artesanalmente repara o que tiver que ser arrumado ao findar do trabalho de Carolzita, apelido que a colega gosta de usar quando logada nas redes sociais. Raquel sabe que Carolzita existe também no mundo virtual, mas nem pensa em adicioná-la. São as tais barreiras artificiais…

E assim, nessa estranha forma de dividir um local de trabalho, completamente indiferentes entre si, seguiriam elas vivendo não fosse a prestatividade de Raquel. Ela não iria para casa tranquila se não perguntasse a Carolina se aquele papel que estava no chão, ao lado do lixo, era ou não algo importante.

Carolina se viu enrubescida e sem ação diante da simples pergunta: “Esse papel vai pro lixo?”. Tais palavras eram como dentes de motosserra afiados a ceifar o tronco que sustentava a então inquebrantável mulher. A Diretora-Presidente da segunda maior companhia de investimentos do Estado, dona de lugar cativo nas colunas sociais e convidada VIP para as festas mais badaladas, símbolo de status e realização pessoal e profissional, começou a se explicar.

“Salve-me”, dizia ela, era o título que havia dado a um bilhete escrito para um amigo distante, mas que não teve coragem de enviar e que, por isso, tinha tido como destino a lata de lixo. O acaso, no entanto, esse moleque imprevisível que pode fazer com que uma bola de basquete gire, gire, gire e caia na cesta ou gire, gire e gire e dê rebote, fez com que o papel jogado, meio dobrado e meio aberto, não caísse na lata, mas ao lado dela. A folha não estava amassada ou picada como todas as demais insertas no cesto. A dobra única que se havia feito permitia, de supetão, que a autora pudesse ressuscitar o seu pedido de ajuda.

E o resgate veio.

Carolzita disse à sua agora confidente das questões mais íntimas que não se sentia feliz.

Era um momento de catarse, de transbordo. Um rompante daqueles que sói ocorrer em períodos de conflito.

A experiência de mais de cinquenta verões vividos no Rio de Janeiro permitiu que os ouvidos de Raquel entendessem que as palavras ali ditas vinham de uma alma não tranquila. Era certamente um coração apertado, com vontades renegadas pelos comandos – conscientes ou inconscientes – da mulher que agora chorava, angustiosamente. Sem se distanciar da confissão sincera que ouvia, ela lembrou de uma conversa travada com seu marido, anos atrás.

Enquanto essas imagens do passado volviam à sua memória, as lágrimas corriam rompendo diques na maquiagem antes harmoniosa junto à pele aveludada de Carol. Sim, era o mesmo pranto que um dia Marcelo, seu marido, não conseguiu controlar diante de Raquel. Como um vulcão que entra em ebulição, lágrimas vinham para libertar e pedir socorro.

A superposição de imagens prosseguia. Era o choro de Carolina e as lembranças daquele verão da década de 80, em que Raquel disse ao companheiro, filosofando, que não há lugar específico para a felicidade. “Isso é um estado de espírito. É dormir tranquilo no travesseiro a cada noite”.

O marido de Raquel revelou então que não era triste por carências materiais, insucessos profissionais, mas porque tinha deixado para trás um filho seu com outra mulher. A imaturidade dos 17 anos pesava tardiamente sobre aquele homem de 30. “Como pude fazer isso? Como posso viver sabendo que há no mundo um filho meu e que não sei sequer se aceitaria me ver?”.

“Não há diferença entre a felicidade de um pobre pagão e a de um rei. Ninguém mede a alma do indivíduo. Uma simples negação, uma pequena fuga do nosso destino, pode preparar o solo para a construção de uma casa chamada Angústia, filha do Conflito com a Insegurança”, disse Raquel, ostentando uma certeza desconfortante.

“O que quer dizer? Que apenas os pobres e descompromissados pagãos são felizes e que a minha vida é uma prisão? Isso é filosofia barata!”. Aquele cérebro brilhante era capaz de provocar sua interlocutora, de achar uma resposta ou um argumento convincente, mas não podia fazer o mais importante: dar espaço para o coração.

Se houvesse diagnóstico de imagem não somente para ossos, mas para alma, seria permitido ver que havia dentro de Carol pedaços esquecidos de seu passado que não haviam sido digeridos. Ainda que não enxergasse, esse “colesterol ruim” das memórias estava lá. E esse lixo das lembranças, quando não cuidado, tende a provocar uma obstrução no fluxo normal dos sentimentos, como se a vida tivesse que parar ali, para tratar o que está errado.

A Diretora durona jamais tinha traçado estratégias para sua própria contenção de riscos. Um doutor da alma, se presente naquela sala, diria que havia presenciado um pequeno infarto. Mas como a alma é superior ao corpo, o seu infarto não mata, nem paralisa o funcionamento do organismo. Apenas extravasa, docemente, na forma de lágrimas.

No caso de Marcelo, anos atrás, não se precisava de raio-x. A sujeira da alma estava detectada, apenas era preciso tratá-la, buscar o rebento abandonado. Foi o que ele fez, encorajado por Raquel e assumindo o risco de não saber o que iria enfrentar.

Com Carol era diferente. Ela tinha, segundo dizia, “a melhor vida do mundo”. Era independente, inteligente, bonita, sensual, divertida, enfim, tinha tudo. Quinta era happy-hour. Sexta e sábado, balada. Domingo um pulinho na praia. Podia escolher qualquer dos bonitões que zanzavam por aí. Se fossem também inteligentes, sem problemas, já que a moça transitava com facilidade entre esportes e política, cultura brasileira e culinária tailandesa, ia da língua materna ao distante mandarim.

“Por que, então, choras?”, provocou Raquel.

“Não sei porque isso. Cada vez vem mais forte esse aperto no coração e essa sensação de vazio”. O trabalho, antes estimulante, tornara-se árido, sem aroma, sem tempero. Já tinha pensado nisso, é verdade, mas não encarava até o fim pensamentos do gênero.

Desejava ironicamente, no afã de visualizar uma causa, ter um problema como o que teve o marido de Raquel. Mas não. Não tinha virado as costas para um herdeiro. Nunca, aliás, tinha pensado em ter um, já que casamento e filhos tolheriam sua independência, sua autonomia. “Isso era questão resolvida!”.

“Você não acredita no que diz. É por aí que seu caminho começa.”, vaticinou Raquel. Realmente ela não teria como ajudar da forma que fosse, sem o esforço de Carol em vasculhar seu próprio interior. Tudo o que poderia fazer, fez. Ouviu o reclame e deu o veredito possível para o momento, ainda que raso e incipiente: Carol mentia para si mesmo.

“Pode ser. Vou pensar”. O fato é que, de verdade, Carol não acreditava na dúvida. Rapidamente pensou que precisava ir para a casa descansar, já que no dia seguinte iria levar seu carro para a revisão e teria que chegar ainda mais cedo no trabalho. “Mas é isso aí… Deve ser uma fase. Vai passar… O trânsito estava terrível hoje, não? Amanhã tem mais! Tchau”. Foi assim que a conversa terminou, por iniciativa de Carolina.

Raquel foi embora a matutar com seus botões enquanto subia o morro. Não pensou em revisões porque não tinha carro. Pegaria o mesmo ônibus de sempre, algo que Carol abominava, ainda que perdesse no transporte público os mesmos cinquenta minutos despendidos na solidão do carro. Ela imaginou o que aconteceria se Carol soubesse que é analfabeta. Certamente, disse para si, a Diretora jamais teria se aberto daquela maneira. Teria autorizado que jogasse a folha no saco preto, no invólucro discreto que usava para recolher o lixo das mesas do escritório.

Raquel estava levemente decepcionada. “Quantos bilhetes Carolina ainda escreveria até ter coragem de entregar o primeiro?”. Riu, por fim, feliz em saber que, mesmo incapaz de redigir uma carta, tinha aprendido a escrever a história de sua própria vida. Chegou em casa e viu a peixinha que lutava bravamente contra a corrente, tudo para alcançar o alimento atrás da bomba de água de seu aquário. Tinha ficado de lhe dar um nome. Agora sabia que certamente não seria Carolina.



 


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